Saturday, June 24, 2006

Análise de Zilda Mello - Leitura de Produções Artísticas/Letras-UFBA

A obra de Rono tem por tema “As Faces de Maria”, e representa uma reverência aos diversos tipos de mulheres: mulheres comuns, guerreiras, famosas. Todas emblemáticas. Todas tendo algo em comum: um toque de doçura e simplicidade, o que justifica o nome Maria (alusão ao que esta palavra representa de religiosidade). Muitas destas mulheres têm características brasileiras: Paraguaçu, a Mulata d` água, Maria Bonita, entre muitas. Outras fazem intertexto, entre a pintura de Rono e a arte pictórica mundial. É o caso do retrato de Frida Kahlo, uma artista famosa mexicana.
Como pano de fundo para o seu trabalho, Rono foi buscar um solo multicolorido, no qual estas mulheres se assentam. Foi atrás de recursos formais no mundo africano, na escultura e na pintura tradicional daquele povo. A arte tradicional na África, segundo Ola Balogun, tinha como propósito primordial a representação, ou então possuía um valor funcional. As máscaras representavam um disfarce místico, através do qual se podia absorver a magia dos espíritos, e através desta aura influir positivamente nas realizações da comunidade. Mas quando se fala em representação, não se diz uma cópia simplesmente: diz-se, que em várias regiões da África, a natureza das coisas era pincelada em tecido, ou inscrita em pedras e barro, conforme o ponto de vista do artista. Assim, se a sua liberdade o guiasse para novos modos de reverenciar o seu mundo, ele o faria diferente, isto é, poderia modificar um símbolo representativo de uma entidade espiritual, ou de um objeto, contanto que a coisa representada ficasse evidenciada através da sugestão.
De modo quase análogo ( a arte hoje é mais abstrata) vejo as Faces de Maria. Começo a observar um quadro que primeiro me chamou a atenção: o de Maria Bonita, que aparenta uma simples “representação”, até naturalista: a vestimenta, a cartucheira, e o amarelo do sol causticante no lugar do tom agreste da paisagem. Visão inconfundível de uma mulher guerreira. Mas Rono dá um salto, de naturalismo passa para o expressionismo. Será? Que entendo eu de arte? Percebo apenas que o artista não se deixou interpretar totalmente. Vejo que aos cactos, faltam-lhes os espinhos. Também estes cactos são figuras estilizadas, assim como são estilizados, (distorção da realidade) os desenhos das mulheres, com os seus traços alongados, com seus olhos excessivamente grandes, lembrando figuras geométricas.
A harmonia figura -fundo, porém, permite-me fazer inferências, e assim, atrevo-me a dizer que os espinhos dos cactos ultrapassam a superfície visível do quadro, e se cravam no seu interior. Pode não ser nada disso, pois como diz Susan Sontag “ a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte”. A pintura deve em primeiro lugar produzir impressões tácteis, sensações. E ainda, vem-me à mente o seu sábio conselho sobre a recuperação de nossos sentidos: “ devemos aprender a ver mais, ouvir mais e sentir mais”. É relativo, penso. O artista ao seu modo, e da forma como se articula com o seu mundo, realça a percepção que tem dos objetos, das figuras humanas ou dos acontecimentos. Mas isso não quer dizer que as “coisas” por si só não se mostrem e não se declarem concretamente. Ademais, sobre o mistério da criação, quem há de saber?
Detendo-me no que vejo, percebo que Rono se apóia realmente no simbolismo africano para enriquecer o seu modo de inventar. Na internet há um quadro denominado Etnia (nem sei se pertence às Faces de Maria), no qual se distinguem os membros inferiores de uma mulher negra: pernas alongadas e desenvoltas, passos largos, como se bailasse. Os membros superiores, são formas indistintas, talvez uma cabaça esteja ocupando o espaço da cintura para cima. Puro contraste: movimento e recuo. A mulher negra, e livre, e em marcha para frente. E também essa mesma mulher, presa às suas origens: ligada a um mundo simples e natural, representada por um objeto útil (a cabaça) provindo da mãe natureza. Tudo não passa de sugestão, bem sei. E ainda neste quadro, sinto a impressão de que tudo ocupa um lugar adequado, impressão esta, derivada do contraste das cores: um fundo preto versus desenhos brancos, e o marrom terroso harmonizando este contraste. Tudo inspira paz.
A linguagem das cores por sinal, permeia toda a temática, “As Faces de Maria”. Para cada quadro, elas imprimem um tom: as cores brilhantes, como o vermelho, o amarelo e o azul, sugerem movimento e intensidade. O colorido vibrante do quadro “ a mulata d´água,” parece imprimir vigor aos passos daquela “Maria”, fazendo com que a rua e as casas caminhem juntos com ela. O amarelo, que forma o fundo e paisagem, no quadro “ Maria Bonita”, é representativo de sol causticante e da natureza agreste. Em “A Poética” a exuberância de cores, azul, verde, amarelo e lilás, assim, todas juntas, se transformam em quentura e traduzem sedução. Muito coerente com o nome do quadro, “A poética”, é uma obra repleta de poesia e sensualidade. Vê-se neste quadro uma mulher de formas voluptuosas contendo uma rosa vermelha na mão. Quem quer se mostrar e seduzir, a mulher ou a poesia?

Em resumo, situei a obra de Rono sob dois focos: entre o dizer e o sugerir. Acho que nestes quadros, forma e conteúdo se mesclam, e expressam o que há de comum nas Marias – a doçura e simplicidade feminina. Forma e conteúdo também evocam, e assim, fazem as Marias se transcenderem para universos múltiplos. A título de exemplo: em Frida, haverá quem pense na sua difícil trajetória, de vida e de arte; em Maria Bonita, o universo social das lutas de classes será revisitado; na Mulata d` água, haverá quem deseje acompanhar os passos da mulher afro-descendente: sua caminhada e tropeço, partindo da escravidão aos tempos de hoje.

Rono, um artista jovem, soube ser coerente com Nestor Canclini ( em Culturas Híbridas – das Utopias ao Mercado) no que diz respeito à busca de recursos renovadores em regiões que sempre estiveram à margem da cultura Ocidental. Canclini analisa este fato, dizendo que na modernidade, a arte salta das utopias e se firma no mundo do mercado, e é por esta razão, que precisa se revigorar, ser mais abrangente, diluir suas fronteiras e quebrar a pretensa autonomia. Foi o que Rono e outros artistas fizeram, inclusive Picasso. Buscaram a mãe África para redimensionar a estética desta arte, tornando-a perceptível também para as pessoas comuns. É neste alargamento da arte que Canclini a insere dentro das perspectivas do mercado, no contexto de divulgação e recepção. Não é por acaso que Rono inseriu no espaço da internet, um trabalho de muita qualidade.

Zilda Mello, aluna do curso de Letras da UFBA em PAPER para a matéria Leitura de Produções Artísticas ministrada pela Professora Suzane Costa.

Fui homenageado pela Professora Suzane Costa com a escolha da minha obra para tema de Pesquisa do curso Leitura de Produções Artísticas.
Li todos os PAPERS da turma e o escolhido foi esse de Zilda Mello, que foi presenteada com uma obra minha.

Além da bela análise, Zilda Mello ainda escreveu uma poesia :

Poesia são as cores-palavras
na Poética de Rono Figueiredo
a sensibilidade feminina moldada em arte plástica
Poesia... paisagem e quadro
Só música e mais nada

Poesia é toque de mágica
O lirismo cadente de Cecília Meireles
A asa ritmada com o sonho no navio
E o navio no meio do mar

Poesia é linguagem meta de poeta construtor
Em João Cabral - a pedra rara que sustenta o verso
E é palavra –sugestão. Arte de mil demônios pendentes no ar
È também arma sedução
Amor infinito enquanto dure, delicadeza de Vínicius

Poesia é água cristalina rio de água mansa...
lavando levando a melancolia de Bandeira

E até em mim que nem poeta sou
Às vezes a poesia renasce:
O indizível beija a palavra
E eu me assusto com o instante mudo


Zilda Bastos Mello

1 Comments:

Blogger rono figueiredo said...

Agradeço muito a todos pela visita e pelos comentários carinhosos. Continuem deixando suas mensagens, esse retorno é muito importante para mim como artista. Se possível deixem um contato para eu responder.
UM abraço
Rono
www.ronofigueiredo.blogspot.com
__________________________

I thank you all for the visit and the kind comments. Please Keep commenting, it's important to me as an artist to hear your opinion. Leave an email or something so that I can return you visit.
All the best
Rono
www.ronofigueiredo.blogspot.com

9:41 AM  

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